Na calçada do Pelourinho, o som que não entra no streaming
Roda de atabaque, voz rouca e turista parado no meio do caminho: uma noite comum que revela como a música de rua sustenta a cidade além dos palcos oficiais.
Roda de atabaque, voz rouca e turista parado no meio do caminho: uma noite comum que revela como a música de rua sustenta a cidade além dos palcos oficiais.
Moqueca de manhã, acarajé à tarde: no mercado mais antigo da cidade, cada panela conta uma genealogia de sabores.
De intervenção temporária a patrimônio de bairro: como artistas transformaram um trecho da orla em galeria a céu aberto.
O Canto da Cidade nasceu da convicção de que Salvador não cabe em cartão-postal. Somos um desk de cultura — não um guia turístico. Caminhamos pelas ladeiras, ficamos até tarde no terreiro, provamos o dendê na medida certa e ouvimos quem faz a cidade pulsar fora dos holofotes. Publicamos reportagens sobre música e festas, culinária baiana, patrimônio vivo, comunidades tradicionais e arte urbana. Cada texto parte de um encontro real: uma conversa na porta de um ateliê, o cheiro de azeite de dendê subindo de um tabuleiro, o silêncio pesado dentro de uma igreja barroca antes da missa.
Salvador carrega séculos de história no mesmo quarteirão em que um bloco de carnaval ensaia às três da tarde. A cidade é contraditória, barulhenta, devota e irreverente — e merece cobertura que respeite essa densidade. Enquanto muitos veículos tratam a capital baiana como cenário de verão ou como roteiro de pontos turísticos, o Canto da Cidade escolhe o caminho oposto: narrativa longa, contexto histórico sem academicismo forçado, vozes de moradores e artistas que raramente aparecem em manchetes.
Nossas pautas nascem de caminhadas. Foi assim que descobrimos a roda de capoeira que acontece toda quinta na sombra de um edifício tombado, o coletivo de grafiteiros que negocia tinta com loja de bairro, a baiana que herdou a barraca da mãe e recusa padronizar o tempero para agradar visitante. Não publicamos listas de "top 10 lugares". Publicamos histórias que ajudam a entender por que aquele lugar importa — e para quem.
A culinária baiana, por exemplo, não é apenas gastronomia: é economia de família, memória afrodescendente e disputa por espaço no centro histórico. O patrimônio não é só fachada restaurada: é o direito de permanecer no bairro depois que o preço do aluguel triplica. A música de rua não é pano de fundo para foto: é trabalho, resistência e festa ao mesmo tempo. Esses cruzamentos são o coração do nosso desk.
Grupos de samba de roda e percussionistas independentes disputam espaço com som ambiente de bar e política de licenciamento. A noite conta outra versão da cidade.
Há quarenta anos no mesmo box do Mercado Modelo, Dona Célia serve moqueca como a avó ensinou — e observa a transformação do entorno com olhar de quem viu tudo.
O que começou como pintura espontânea virou referência para moradores e turistas. Mas quem decide o que permanece e o que é apagado?